O Vítor Domingos teve a oportunidade para dar uma volta pelo novo Windows Vista
, e a gentileza de mostrar alguns screenshots. Quando ele mos mostrou, saltou-me logo à vista (no pun intended) o menu Iniciar.
Neste artigo vou discutir em que medida esta nova disposição (por omissão) do menu peca por falta de usabilidade, o que constitui uma regressão — pois, no Windows XP, não existia esta falha. Vou começar por introduzir a teoria por detrás disto: a…
…Lei de Fitts
A Lei de Fitts é uma proposição utilizada em ergonomia, para definir o tempo que um utilizador (com um dispositivo apontador, como um rato) demora a atingir um alvo a partir de um ponto inicial, como uma função da distância entre este ponto inicial e o alvo, e também do tamanho da área-alvo.
No que toca à questão do tamanho, existem alguns pontos especiais num ecrã. As margens superior e inferior do ecrã têm altura infinita, as margens esquerda e direita têm comprimento infinito, e os cantos do ecrã são de dimensão infinita — tecnicamente falando. Isto porque o ponteiro converge para esses sítios, diminuindo drasticamente as possibilidades de falhar (desafio-vos a mover rapidamente o rato para a direita, e tentarem não acertar no limite direito do ecrã ;) ), ou seja: apenas de ser uma área, fisicamente, de 1×1 pixel (tal como todos os outros pixéis do ecrã), não é preciso fazer nenhuma espécie de "pontaria" para lá acertar.
Menu Iniciar no Windows XP
No tema visual que vem definido, por omissão, no Windows XP, o menu Iniciar vai de encontro à lei de Fitts. Basta agitarem despreocupadamente o rato no sentido do canto inferior esquerdo, que ele converge para o pixel desse canto; cliquem, e, por esse pixel fazer parte do botão do menu, este abre-se. Não é preciso prestar especial atenção ao acto de ir com o rato até ao botão do menu Iniciar, pois não há o risco de ir "muito para a esquerda" ou "muito para baixo" e ter de corrigir o movimento.
Foi, portanto, uma decisão acertada por parte da Microsoft, no que toca ao design da interface e uma evolução em relação ao Windows 2000 (que sofre de um outro tipo de mal que irei indicar mais à frente). Seria impossível pedir melhor do que isto, neste pormenor específico… mas escusavam de regredir, ao conceber o…
…Menu Iniciar no Windows Vista
Ao transformarem o botão do menu Iniciar num círculo (encostado à margem superior do ecrã, mas afastado cerca de 10/15 pixéis da margem esquerda) este perdeu a medida infinita numa das dimensões. Tem altura infinita, mas largura finita; mas ainda: dado ser circular — e, portanto, a sua largura diminuir à medida que se aproxima da margem superior do ecrã — a altura infinita só pode ser usufruida ao longo de uma largura de cerca de 30 pixéis.
Continua-se a poder lançar despreocupadamente o rato no sentido ascendente, mas será, na maioria das tentativas, necessário corrigir a abcissa do cursor do rato.
Pode-se dar o caso (apenas vi os screenshots, não experimentei a interface — e não apanhei o Vítor online em tempo útil de esclarecer isto com ele) de aquela zona a preto do lado esquerdo (e, consequentemente, o pixel do canto superior esquerdo) pertencer ao botão do menu Iniciar — ou seja, clicar-se no canto superior esquerdo do ecrã e o menu aparecer. No entanto, isso peca por outra questão: falta de intuitividade — num cenário destes, o acontece é que o botão aparenta ter uma forma e um tamanho reais que diferem da forma e tamanho úteis.
Actualização (2006-03-26): esclarece o Rui Moura que é este o caso — o canto superior esquerdo do ecrã é clicável, mas não parece.
É o que se passa neste outro exemplo:
GNOME/Ubuntu
Manipulei um pouco a imagem deste detalhe do botão "Show Desktop" do Clearlooks (o tema do GNOME que venha escolhido, por omissão, no Ubuntu), colocando aquele rebordo negro para ser mais facilmente visível o busílis da questão. O que sucede (e que é observado por Matthew Paul Thomas no seu artigo My first 48 hours enduring Ubuntu 5.04 — ponto 2) é que, além de o botão ter uma área física generosa, inclui aquela pequena grande área que é o pixel do canto do ecrã (que, de origem, é o inferior esquerdo, eu é que o uso lá em cima); porém, não aparenta incluir este pixel, por ter os cantos redondos.
É este também o problema de que, como referi, o Windows 2000 (e o tema Classic — "Windows 2000 Look-Alike" — do Windows XP) padece. Neste caso, o botão apresenta um espaçamento de uns 2 pixéis em relação a ambas as margens (esquerda e inferior) do ecrã, e no entanto este espaçamento (visual, claro) é área clicável.
E pronto: falei bem do Windows e mal do Linux. Quem é que ainda é capaz de me chamar tendencioso? ;-)
Links relacionados
- Lei de Fitts na Wikipedia;
- Demonstração interactiva da lei de Fitts













9 Comments
Sinceramente eu devo ser um dos poucos que encara isso como uma feature do que propriamente como um "erro".
Isto porque até me dá um certo jeito, posicionar o rato totalmente à esquerda e descer sem que ele interfira directamente na selecção do menu.
O mesmo até acontece, pelo menos no Gnome em Ubuntu, quando por ex, entras no menu Applications e passas com o rato em Games, ao abrir o novo sub-menu ele deixa mais uma pequena margem, que ao passares com o rato não interfere nem com o menu Games nem com o menu "Root".
Mas aí está, pode só dar jeito a mim:\
Mas Cláudio, neste caso (o do pixel do botão Show Desktop), trata-se precisamente do oposto: um pixel (ou mais, no caso do menu Iniciar do Windows 2000) que dá a impressão visual de ser inerte, mas que não o é.
É bastante sugestivo que o Iniciar do Windows Vista esteja assim tão pertinho da lixeira, pronto para entrar nela… não lhes parece?
Se ele se soltar da barra superior, é onde vai parar, na lixeira. ;)
Esquece, pára tudo, li tudo de forma errada.
Feel free to delet it.
O botão é clicável até ao "extremo" do ecrã. Já experimetei este último build do vista e posso confirmar.
Aquela "bolinha" é meramente estética.
Como já tinha comentado contigo creio que o windows vista é uma tentativa da microsoft de fazer algo intermediário entre o mac e o linux mas como sempre não foram muito brilhantes…
Parabéns pelo artigo!!
Reparei também que ao transofrmarem o botão "iniciar" numa bola reduziram também o seu tamanho, tornando assim mais difícil uma pessoa com menor precisão de movimentos a não conseguir acertar com o botão :)
@Ivo:
Na prática, pelo que o Rui Moura confirmou no comentário dele, isso não acontece.
Pode-se, sim, dizer que a aparência impele-nos a fazer uma "pontaria" desnecessária, dado que algum do espaço extra-círculo também é clicável — uma pessoa com menor precisão de movimentos e que leve o rato para o canto do ecrã é, portanto, prejudicada, não tanto por não conseguir clicar, mas por "emendar" o movimento a pensar que não consegue.
Era nesse sentido que estava a falar. O alvo passou a ser um círculo e a tendência é clicar dentro desse círculo, mesmo que a área clicável seja maior…
One Trackback
[...] Nem de propósito: depois do post de ontem sobre a importância, do ponto de vista de usabilidade, dos cantos e margens do écrã, eis que me deparo com este achado. [...]